
O contato da Irmã Rita Cecília Coelho com o atendimento de saúde ocorreu antes mesmo dela entrar na Congregação das Irmãs Franciscanas de Allegany. Em Araguacema (TO), conheceu Frei André Quinn e passou a participar das ações pastorais e da escola paroquial. Por várias vezes, ele tentou convencê-la a se tornar uma franciscana, mas, naquele momento, sem sucesso. Ela tinha apenas 15 anos, e sua admiração era pelo trabalho das irmãs Capuchinhas e pelas Dominicanas. Irmã Rita tinha um apreço especial pelo trabalho desenvolvido por Irmã Violeta, que era médica.
Como ela contava, pelo menos uma vez por mês, subia o rio com as irmãs e outros missionários, que a buscavam em Araguacema, para fazer atendimentos às comunidades desassistidas da época. Em uma dessas missões, a vocação, tanto para a vida religiosa quanto para a Medicina, foi confirmada.
Segurando uma lamparina, que, na Bíblia, é frequentemente associada à iluminação e orientação espiritual, Irmã Rita ficou impressionada com a forma como Irmã Violeta atendia a um doente que estava muito enfermo e deitado em uma rede. A humanidade, o amor e o respeito daquela religiosa despertaram nela o desejo de seguir seus passos. Foi a confirmação, segundo Irmã Rita, de um grande sacramento selado entre Deus e ela.
O convite para que se tornasse uma franciscana de Allegany veio da Madre Jean Marie, norte-americana, e superiora da época, e da Irmã Maria dos Anjos, durante uma visita a Araguacema. Naquela cidade, já moravam no convento as irmãs Assunta e Margarida. Frei André providenciou a compra das passagens para que ela pudesse conhecer o Convento Mãe Admirável; e a vida religiosa. Na ocasião em que vieram para Goiás, acontecia a festa dos votos perpétuos da Irmã Anita. Embora já estivesse em Anápolis, ela não pôde participar de toda a cerimônia. Sentindo dores e com febre alta, foi levada ao hospital, onde foi diagnosticada com malária. Ficou internada por uma semana.
Ao completar 18 anos, em 1963, iniciou sua formação para se tornar uma Franciscana de Allegany. Ela se recorda de que, aos sábados, juntamente com as irmãs Elisabeth e Jacinta, visitava os portadores de hanseníase no lugar que, na época, se chamava Leprosário, hoje o bairro Paraíso. Também, juntamente com a Irmã Valdete Patrocínio, trabalhou como assistente no setor de Raio-X da Santa Casa de Misericórdia.
Foi esse trabalho no hospital que a motivou a iniciar um curso de Radiologia em Goiânia, que acabou não sendo concluído por problemas administrativos da própria faculdade. Decidiu, então, prestar vestibular para Medicina, na cidade de Belém, e começou um novo capítulo em sua história.
Irmã Rita Cecília fazia Residência em Obstetrícia, em São Paulo, quando retornou a Anápolis, em 1988, para assumir a administração da Santa Casa de Misericórdia de Anápolis. Ela dizia que cada administrador de instituições filantrópicas deveria estar consciente de que “é um servo de Deus, pois a obra é Dele, e, com Sua misericórdia, se encarrega de socorrê-la em toda a Sua graça”. Em uma dada ocasião, durante as três décadas em que esteve na gestão do hospital, Irmã Rita destacou: “não interessa quem executa, o que interessa é o que se faz, a obra que fica”.
Durante sua gestão, foram muitos os investimentos públicos e privados aplicados no hospital, além das doações que também foram revertidas para as reformas e ampliação. Irmã Rita ressaltava sempre o apoio recebido da comunidade, tanto no aspecto espiritual quanto político, econômico e social. Ela citava ainda o apoio da Diocese de Anápolis, fazendo uma lembrança do então bispo Dom Manuel Pestana Filho, dos frades franciscanos e dos membros da FASA, a instituição mantenedora.
A colaboração internacional foi importante durante a sua gestão, incluindo a Santé Internationale do Quebec, no Canadá, a Mission Society dos Estados Unidos e o Hospital St. Francis, em Miami. São pessoas devotas à causa do bem, como enfatizava Irmã Rita.
Irmã Lea Durkim sempre foi lembrada por ela como uma coordenadora dedicada e visionária do setor de Enfermagem em um importante período da história da Santa Casa de Misericórdia. Outras irmãs, como Anita Ferreira da Silva, Tereza Maria Sweeney, Rita Miguel, Eurípedes, Julieta de Carvalho, Maria Luiza, Miriam Nagales, Valdete Patrocínio e, mais recentemente, Irmã Bernadete e Irmã Aldenir, eram citadas com carinho por ela, muito mais do que por suas habilidades profissionais, mas como missionárias dentro do hospital.
Compositora
A música como expressão de fé, vocação e missão marcou a trajetória de vida da Irmã Rita Cecília Coelho. Em entrevista recente para as redes sociais da Congregação das Irmãs Franciscanas de Allegany, ela compartilhou lembranças e experiências que revelam como a musicalidade esteve presente em sua vida desde a infância, tornando-se um caminho de encontro com Deus e de anúncio do Evangelho.
“A música, para mim, é uma grande inspiração de Deus. Falar da música é tomar consciência do espelho de Deus em nossas vidas. A música é isso: a inspiração dele, a maneira de chegarmos mais próximos de Deus e abraçá-lo dentro do nosso ser”, afirmou.
O primeiro contato mais profundo com a música aconteceu ainda cedo. “Já aos 11 anos, eu estudava com as irmãs Capuchinhas, e lá eu participava do coral. Eu tinha facilidade de tocar instrumentos de coro, o que demonstrava uma facilidade para ritmo”, recorda.
Foi também nesse período que surgiu o despertar vocacional. “No dia 19 de outubro de 1958, nós estávamos na Missa de encerramento da novena de São Pedro de Alcântara, lá em Carolina, no Maranhão, e estávamos cantando no coral a música ‘Eu quisera Jesus adorado’. Eu senti como se alguém tocasse na minha cabeça, e foi a primeira vez que eu pensei em vida religiosa, sem saber o que era a vida consagrada, mas admirava a vida das irmãs”, relata. Ela acrescentou: “sempre gostei de São Francisco, minha paixão primeira, que me fez caminhar nessa direção”.
A vivência junto à natureza e à comunidade também contribuiu para sua formação. “Na cidade onde eu morei, Araguacema, tem uma paisagem riquíssima, que é o Rio Araguaia. Na contemplação daquela natureza, convivendo com os frades, iniciamos o trabalho de fundação da escola; eu tinha 15 anos”, conta.
A música continuou abrindo caminhos. “Eu tinha um amigo que tocava violão, ele se chamava José Wilson Leite, que é o autor da música ‘Meu Araguaia’. Tivemos a oportunidade de cantarmos essa música para o então presidente Juscelino Kubitschek”, lembra.
Ao chegar a Anápolis, a dedicação seguiu firme. “Eu não sabia tocar bem violão, mas fui aprendendo aos poucos. Minha paixão sempre foi a música para louvar a Deus. Pregar o evangelho através da música; hoje posso dizer que sou compositora”, destaca.
Entre suas produções, ela recorda: “O primeiro disco gravado pelas irmãs Paulinas se chamava ‘Plantando a Liberdade’; depois vieram ‘Plantando Vidas’ e ‘Plantando Amor’. É a beleza da nossa vida, é a música, e estar cantando a Deus junto ao povo de Deus, nos momentos de comunidade, nas paróquias com o povo de Deus. Cantar os louvores de Deus como São Francisco fez”.
A formação e as experiências também fortaleceram sua missão. “Estudei em Belém; quando fiz Medicina, conheci bem os alagados, a vida religiosa, o sentimento de pertença, o sentimento de cantar as belezas de Deus. Compus a música COP 30, fazendo referência a tudo que conheço e que vivi”, afirma.
Nos últimos anos, Irmã Rita Cecília aprofundou sua compreensão sobre a música, sendo acompanhada por seu professor, o músico Rafael Sousa. “Estamos escrevendo algumas composições. Cada vez mais nos aprofundando na conscientização de que a música é o espelho de Deus”, concluiu.









